Lucia acorda umas seis e meia e é meu dia de acordar cedo. Maria, tal qual um zumbi, acorda junto. Faço café da manhã pras duas, e Maria volta pra cama. que inveja. Passa mais um tempinho, Lucia elétrica e para não acordar a Ana, vou com a Lucia voltar.
Chegamos um pouco antes da zona abrir e esperamos no carro, por causa da chuva. Ok, abriu, pego a Lucia e vou mostrar pra ela como funciona a democracia. Tem uma fila de gente esperando o elevador, já que dos seis andares do prédio, só os dois últimos estão sendo utilizados. resolvo ir de escada.
No primeiro lance de escadas a Lucia começa a vomitar em jorros. Acerta meu sapato, a barra da minha calça, minha camiseta, as roupas dela, e pobre da zona eleitoral, que além de um cheiro horroroso passou a ser perigo de queda. Subo mais um lance e nosso pequeno reservatório de vômito infinito repete o ato mais três vezes. Perdão, ó eleitores da faculdade Sumaré. Por sorte eu não estava na fila do elevador, ou teria sido linchado.
Levo a pobre ao banheiro, dar uma limpadinha básica, e depois pego o elevador. Não são alguns litros de matéria semi-digerida que vão me fazer mudar de idéia. Fico na fila da minha seção, ouvindo comentários do tipo "é, essa é a criança que vomitou tudo aqui" e outros que não consigo discernir, e chegando lá dentro, me dizem que meu nome não está lá. Vou na seção do lado, todo vomitado, fedorento e horrorizando as pessoas, passo na frente da fila pra perguntar se meu nome está lá, e me dizem que não.
As pessoas ficam falando, ou terei imaginado, "nossa que absurdo", e eu em resposta aponto a Lucia na direção deles e digo tem mais vômito aqui, se encher o saco eu aperto o gatilho, ou terei imaginado isso.
Em vez de repetir esse processo em todas as salas daquela verdadeira zona, olho para a carinha da Lucia e digo "processo eleitoral, você venceu dessa vez, e vamos pra casa, só parando pra justificar o voto na saída. Justificar o voto na minha própria zona eleitoral é muito o fim da picada. A justificativa ficou cheirando a vômito, o que, espero, constitua razão em si mesmo.
Chegamos em casa, tiro minha roupa, a da Lucia, ponho pra lavar, visto a Lucia, visto uma roupa e quando a Ana acorda ela mal imagina a verdadeira aula de democracia visceral que nós tivemos.